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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

As crianças não podem ser tristes...


Num campo com filas e filas de tendas, onde os paquistaneses se refugiaram após as graves cheias que destruíram as suas aldeias, reparamos que as crianças todas elas lindas, sem terem muito a noção da tragédia que as suas famílias estão a viver, dão um toque mágico e transformam o pior dos ambientes num cenário quase alegre.

 
Fotos: Dawn Media Group

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Cheias no Paquistão

O número de pessoas, que estão a sofrer pelas chuvas torrenciais, estimado em 13 milhões, excede em 2 milhões o total dos afectados nos três recentes grandes desastres, o Tsunami em 2004, o terramoto em Caxemira em 2005 e em Janeiro deste ano o terramoto no Haiti.

Muitos paquistaneses que já tinham uma vida miserável, vêm-se agora sem comida e sem abrigo, precisando seriamente de assistência.
Milhares de pessoas escolheram estradas, pontes, caminhos de ferro - qualquer pedaço de chão seco -  para acamparem. 
Dizem que conseguiram escapar com vida das cheias mas a fome poderá matá-los.

As Nações Unidas falam que são precisos muitos milhões para recuperarem das piores cheias na história deste país 

Imagens da tragédia, que não tem sido muito falada por cá.








Fotos Dawn Media Group

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Minha viagem ao Paquistão


A ida ao Paquistão foi muito marcante.

A viagem foi muito longa, 2 dias seguidos sem dormir pela necessidade de apanhar três voos.

Fiquei a morar durante um mês com uma família, residente em Lahore no Punjab, com quem tinha vindo a ter contactos pela internet um ano antes, cuja preocupação primordial era a minha alimentação e bem estar.


Esta família que anos antes tinha vivido numa mansão cheia de empregados por possuirem um negócio de venda de tapeçarias, conforme fotografias que me mostraram, vivia agora no limiar da pobreza pela morte súbita do marido e pai, anos antes, com apenas 40 anos. Após a morte do marido a Amee (vestido azul) foi banida do resto da família pelo simples facto de ter ascendência árabe, explicação que não entendi bem se tinha a ver com castas. Sózinha e enganada pelos sócios do marido, que ironicamente eram familiares pelo casamento, teve de suportar todas as dívidas que disseram o seu marido possuir. Valeram-lhe todas as jóias que tinha e num país como o Paquistão, que não dá qualquer estatuto às mulheres, teve de recomeçar completamente só com 4 filhos menores na altura.

Como viúva e sem bens seria agora muito difícil arranjar casamento para a sua única filha que não tinha qualquer dote. Mas ao fim de algum tempo, conseguiu casá-la com um sobrinho e primo direito da filha, comerciante de frutas de profissão. A sua filha Kazma (vestido laranja) tinha sido a melhor aluna do colégio inglês onde tinha estudado e por isso convidada a lá leccionar. O seu marido (à direita na foto) desde sempre opôs-se, batendo-lhe frequentemente, mas sem conseguir os seus intentos. Kazma conseguia sózinha, cuidar dos filhos, do marido e sogros e ainda dava aulas no colégio inglês.

Observei que a mulher paquistanesa da classe média baixa, quando casa, vai viver para a casa dos pais do marido e, literalmente, passa a ser a criada da família. Todos as tarefas caseiras têm de ser feitas por ela, sem auxilio de ninguém.


O Paquistão é um país lindíssimo, muito pobre mas em que as novas tecnologias de informação estavam em muito avançadas. A internet era de fácil acesso em qualquer pequeno café e tinha um custo baixíssimo mesmo para os locais. O telefone fixo em casa funcionava sem assinaturas e através de cartões recarregáveis.

Os medicamentos não eram vendidos às caixas, mas só na dose certa para o tratamento da doença, como constatei numa ida ao hospital por uma alergia que contraí.

Entendi que a única ambição na vida de um jovem é o casamento. Nessa família havia 2 irmãos a terminar licenciaturas de economia e gestão e ambos comentavam que todos os jovens após o curso, arranjavam emprego e logo após tratavam de casar. Quando lhes perguntei porque não gozavam a vida por serem tão jovens antes de constituirem família, ambos ficaram como que estupefactos porque não entendiam a extensão da minha pergunta. O conceito de gozar a vida simplesmente não existe. Não têm namoradas pois a religião nem a tradição o permite e os casamentos são combinados, sendo permitido a união entre primos direitos. Mais tarde li que estes casamentos consanguineos geram muitos filhos microcéfalos, mais que em qualquer parte do mundo.

No Paquistão têm uma ideia generalizada e muito negativa àcerca das mulheres europeias que consideram umas libertinas. Excepção feita às alemãs, mulheres enormes e muito feias que os paquistaneses iam literalmente buscar a aldeias recôndidas na Alemanha. Segundo comentavam eram excelentes donas de casa, muito submissas, davam muitos filhos sendo muito boas mães. Comprovei esse facto observando algumas famílias mistas com que me cruzei e não pude deixar de pensar que a descrição que faziam dessas alemãs era como se de animais de raça se tratassem, pelo rendimento familiar obtido com esse tipo específico de mulher.

A parte que menos me agradou foi a impossibilidade de andar sózinha nas ruas. Tive a oportunidade de viajar até à capital Islamabad, onde encontrei a cada passo imensos pedintes, depois a Peshawer uma cidade que não consegui visitar convenientemente. Em Peshawer, que fica no norte do país e perto do Afeganistão, reparei que não havia muitas mulheres na rua e apesar de ir acompanhada com um dos filhos da família que me acolheu, na rua, os homens, velhos e crianças formavam uma roda à minha volta e miravam-me como se eu fosse um bicho raro o que por vezes era assustador. Fui obrigada a apanhar o autocarro mais cedo para me levar ao norte do país à bela cidade de Murree, onde respirei o ar mais puro na minha vida, nos himalaias na cachemira paquistanesa.


Não existia a recolha de lixo, a mesma era assegurada por búfalos, cabras e ovelhas que ao passarem pelas ruas iam comendo os restos de alimentos e verduras nos locais onde eram amontoados. Não havia problema para os animais já que os lixos não continham resíduos de plásticos, embalagens ou outros do género, pela pobreza dos seus habitantes que não tinham poder de compra para consumir produtos sofisticados de embalagens atraentes.

Na cidade de Lahore, os jardins, vedados aos mendigos, eram diáriamente cuidados por legiões de funcionários camarários. Nesses jardins, onde era permitido aos seus visitantes colher flores, existiam lagos de pouca profundidade, onde maravilhada contemplei e ouvi grandes bandos de corvos e falcões a banharem-se. Tive a oportunidade de visitar os belos jardins "Shalimar Gardens", construidos em 1642 por Shah Jahan, quinto Imperador da dinastia Mongol.

A alimentação paquistanesa que apreciei bastante, bem diferente da hindu pois não abusam do caril, continha imensas especiarias e era extremamente picante. Quando já não suportava o desconforto na boca do efeito do picante, davam-me pedaços de maçã crua que eu mastigava e o alívio era imediato.

Não havia talheres pelo que agarrávamos a comida com pedaços do seu pão raso e mole a que chamam de Nan. Também provei carne de camelo que tem um sabor único e muito bom. O leite saborosíssimo, gordo e cheio de nata que bebíamos era de búfala, porque lá não existem vacas leiteiras. Gostei muito também de cana do açúcar, que se guardava no frigorífico lavada e partida em pedaços, muito refrescante naquele clima quente, quando mastigada para se sugar o seu interior.

Quando viajei pelo país, para comer tinha de recorrer aos vendilhões na rua. A comida aí era confeccionada por vezes com alguma falta de higiene mas aparentando ser deliciosa. Concluí que uma pessoa com fome acaba por habituar-se e tudo acaba por lhe saber bem.


Uma curiosidade, neste país com um trânsito automóvel caótico as prioridades funcionavam para quem tivesse uma buzina mais potente que era accionada metros antes dos cruzamentos. Parecia que os automóveis iam embater uns nos outros, mas, miraculosamente isso nunca acontecia.

Quando cheguei ao Paquistão, celebrava-se o início do Ramadão. Pensei que ia ter problemas e não poder alimentar-me convenientemente pelo jejum a que estão sujeitos nessa época religiosa, mas não foi o caso. As refeições eram tomadas enquanto não houvesse luz solar. Uma ocasião numa pastelaria comprei um bolo e um empregado com maus modos convidou-me a sair do estabelecimento. Rápidamente, Qasim entrou em minha defesa, porque sendo eu estrangeira e católica, não estava sujeita às leis do Corão.
Pelas manhãs era despertada pelos cânticos nas mesquitas a que chamavam Azan. O Azan é o chamamento que anuncia o início da oração, mas parece que nos embala pela sua doçura. Estes cânticos começavam sempre por “Allah Akbar” uma expressão em árabe que significa "Deus é grande". Para recordar essa sensação única de ouvir o Azan, recorro ao Youtube.